O inicio da Análise Bioenergética no Brasil
22 de outubro de 2009Padroes Vinculares e Fluxo Energético
27 de outubro de 2009Eulina Maria de Carvalho Ribeiro
I INTRODUÇÃO
Nesse artigo, pretendo analisar nossa prática como analistas bioenergéticos, inserida nas questões da atualidade, tendo como referência as idéias clínico-político-sociais de Wilhelm Reich, buscando contribuições das teorias contemporâneas que se propõem a pensar os “sintomas” na clínica.
Uma pincelada no cenário nacional, para efeito de contextualização, faz-nos ver uma população estarrecida, que se depara com a derrubada dos valores éticos e morais, com a irrupção de escândalos políticos e a usurpação do dinheiro público. Além disso, é ameaçada por uma insegurança, generalizada, que acarreta como conseqüência o medo da perda dos ideais, dos sonhos e da pulsação da vida.
Nós vivemos em um mundo onde a ilusão do caráter absoluto de uma configuração é investida com grande intensidade e a vontade de conservação atinge seu ápice. É o mundo do consenso, fusional, sem alteridade, nem criação e tampouco vida, cuja forma exacerbada é o totalitarismo, de Mercado ou de Estado. O enfraquecimento da alteridade vem provocando efeitos desastrosos na relação do sujeito com o ambiente, que passa a viver o corpo como estandarte do ideal de perfeição e invulnerabilidade, assinalando a prevalência das instâncias ideais como reguladoras do psiquismo.
Têm sido dentro desse panorama que recebemos em nossa clínica pessoas em perfeito estado de desespero por não encontrarem recursos para lidarem com esta realidade.
Suely Rolnik (2003), psicanalista, professora do Curso de Pós-Graduação de Psicologia Clínica da PUC/SP e coordenadora do Núcleo de Estados da Subjetividade, ao falar dos sintomas que nos deparamos hoje em dia, tais como: síndrome do pânico, depressões inespecíficas, exaustão sem fim – cuja manifestação mais extrema é curiosamente chamada de burn out –, além de anorexias e bulimias, por mim acrescentadas, relata que cada um deles corresponde a experiências traumáticas de uma das etapas do processo que se desencadeia na subjetividade.
Assim, a síndrome do pânico poderia ser considerada uma experiência traumática do assombro perante a crueldade da vida, que destrói formas de existir. Segundo a autora, ainda, o desencadeante desta síndrome é o fato de a destruição recorrente de modos de existência ser vivida como ameaça de destruição de si mesmo, parecendo atingir o organismo.
Com relação às depressões inespecíficas, Suely atribui seu desencadeamento à experiência traumática do esvaziamento de sentido, isto é, para não transformá-lo em medo e desamparo, fica no vazio, provocando descrença no mundo e impedindo o desejo de conectar-se. Em relação à exaustão, explica que esta seria própria de uma subjetividade que não sucumbiu à vertigem diante da crueldade, nem ao esvaziamento do sentido, mantendo em atividade as forças da criação e resistência, porém perdendo o ritmo do pulsar entre a expansão e a contração, ao passar a funcionar frenética e ilimitadamente até o burn out, isto é, a queima em um curto-circuito de sua energia vital.
Na opinião de Maria Helena Fernandes (2006), psicanalista e doutora em Psicopatologia pela Universidade de Paris VII, a discussão a respeito da relação entre os transtornos alimentares e a cultura impõe-se na medida em que os ideais de magreza vêm assumindo, nos últimos tempos, uma significação amplificada aos interessados no assunto. Segundo a autora.
“O mal estar decorrente dos processos de homogeneização da cultura, através de uma espécie de ocidentalização do mundo, encontra nos transtornos alimentares uma de sua forma de expressão, entre outras tantas, talvez uma forma privilegiada, por engajar, diretamente o corpo, alvo dos ideais de completude e perfeição veiculados pela pós-modernidade. Assim, denunciando o mal-estar na atualidade, os transtornos alimentares parecem exemplares para apontar o paradoxo do excesso e da falta numa cultura marcada pela busca da linearidade anestesiada dos ideais”.
Elizabeth Roudinesco (2000), historiadora e psicanalista francesa, adverte-nos que vivemos hoje em uma cultura cada vez mais depressiva, não só porque o cotidiano é penoso, repleto de frustrações, fracassos e decepções, mas, principalmente, porque gera “personalidades” frágeis, pouco resistentes à frustração, à perda, ao fracasso e à incompreensão do outro. Alguns tornam-se mais susceptíveis à desestabilização diante das agruras da vida ou de alguma hipotética predisposição orgânica. E outros, mais confiantes em suas possibilidades e firmes em seus valores ou mais resignados, se tornam mais fortes com uma sólida subjetividade, com mais recursos para lidar com o sofrimento.
De acordo com o Dr. Marcio Bernik, médico psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Ansiedades do Hospital das Clínicas do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, a síndrome do pânico – na linguagem psiquiátrica chamada de transtorno do pânico – é uma enfermidade que se caracteriza por crises absolutamente inesperadas de medo e desespero. A pessoa tem a impressão de que morrerá naquele momento de um ataque cardíaco, porque o coração dispara, ela sente falta de ar e tem sudorese abundante.
O sofrimento se dá durante as crises e ainda mais nos intervalos entre uma e outra, pois o paciente não tem idéia de quando elas ocorrerão novamente, trazendo insegurança e comprometendo a sua qualidade de vida.
O transtorno do pânico é uma doença que se manifesta especialmente em jovens e acomete mais as mulheres do que os homens, sendo que a maioria tem a primeira crise entre 15 e 20 anos, desencadeada sem motivo aparente.
A pessoa preocupa-se com o fato de que os sintomas possam aparecer em uma situação para a qual não encontre saída nem ajuda, como dentro de elevadores, metrôs, lugares fechados etc. Se reagir de forma a evitar esses lugares, a partir dessa experiência, desenvolverá uma segunda doença: a agorafobia, quadro fóbico provocado pelo pânico não-tratado e que se caracteriza por fugir de situações de perigo, é o medo do medo. Frente a esta complexidade, pergunto-me: Qual, então, a atribuição que nos cabe enquanto analistas bioenergéticos?
Segundo Alexander Lowen, nossa missão é trabalhar no sentido de revitalizar esses corpos, tirando-os do estado traumático em que se encontram e que anestesia os impulsos em direção à vida. Ele acredita na força do organismo e em seu desejo de viver, atravessando a vontade de morrer.
II PULSAÇÃO
Existe um documentário chamado “Estamira”, uma história real, que não trata de representação ou performance, mas narra a vida de uma mulher diagnosticada como esquizofrênica, que, não aceitando esta classificação, vive em um “bolsão de lixo” sobrevivendo e denunciando o sistema psiquiátrico de confinamento e suas drogas alienantes, em sua plena lucidez dentro de um discurso confuso. Este filme comovente e real, sem pretensão de pregar nenhuma “verdade”, conta em sua pureza a vida como ela é, como essa mulher continua pulsando e vibrando apesar de excluída e considerada impossibilitada de viver sua vida.
Diante dessa realidade, pude constatar meu sentimento de gratidão a Lowen, que sempre nos transmitiu sua forte crença na força do organismo e na possibilidade de restauração da força vital.
Para dar continuidade a esta análise, relatarei dois casos clínicos que respondem às questões acima.
II.1 Caso Clínico 1
Maria, como a chamarei, 24 anos, chegou ao consultório tão assustada e encolhida que parecia um coelhinho fora de seu habitat. Segundo ela, nascera em uma pequena cidade do Interior e pertencia a uma família extremamente religiosa. Ao terminar o curso de Psicologia, mudou-se para São Paulo, a fim de fazer Especialização em alguma importante universidade. Foi morar na casa dos tios e, na ocasião, conheceu um amigo dos primos, por quem se apaixonou.
Maria relatou que durante a infância sofria de uma doença cardíaca denominada “comunicação intraventricular”, popularmente conhecida como “sopro”, que a estigmatizou como frágil e com pouca saúde até os dias de hoje. Esta doença foi vivida pela família como constante risco de vida.
Um outro fato significativo por ela contado foi o alcoolismo do pai, que, quando bebia, se tornava agressivo e extremamente severo com as filhas. Maria é a segunda filha de quatro irmãos; ela e seu único irmão são mais apegados ao pai e a irmã mais velha, à mãe. A outra, caçula, foi cuidada e protegida por Maria, apesar de terem uma diferença de apenas oito anos.
Durante o processo terapêutico, Maria foi percebendo seus sentimentos ambivalentes pelo pai, em quem buscava o suporte que nunca havia tido com a mãe; ao mesmo tempo, temia sua reação descontrolada pela bebida ou quando, na adolescência, saía com rapazes ou namorado.
Chegar só à cidade grande, ter de vencer todos os obstáculos que esta nova vida lhe causava somado ao fato de ter se apaixonado e começado a viver mais livremente sua sexualidade, acredito terem sido situações que ativaram sintomas fóbicos, impedindo-a de aproveitar este momento com mais intensidade.
Maria passou a temer tudo: seus professores, andar sozinha pelas ruas de São Paulo, lugares com muita gente, incomodar seus tios, ter relação sexual com seu noivo etc. Quando passava por estes momentos, começavam as tonturas, suava frio e tinha uma sensação de desfalecimento. Seu sofrimento era tão intenso que tive de encaminhá-la a um psiquiatra de minha confiança, para aliviar um pouco os sintomas que a acometiam freqüentemente.
Ao refletir sobre a intensidade deste medo, lembrei-me do “Pequeno Hans”, paciente de Freud que sentia medo de ser mordido por cavalo. A análise deste caso levou o psicanalista ao entendimento do deslocamento dos sentimentos, isto é, o medo dos cavalos era o correspondente de uma ansiedade referente a um forte anseio reprimido. Por outro lado, podemos também pensar este medo a partir do impedimento de Hans ir para a rua e para a vida.
Ao compreender a raiz do medo de Maria, fui, primeiramente, construindo um vínculo de confiança e um ambiente acolhedor, para que ela se sentisse segura o suficiente para ir se apossando de seus sentimentos. Sentir a intensidade de seu medo e sua desconfiança foi uma questão essencial no primeiro momento do processo.
Nosso trabalho durante todos esses anos tem sido construirmos, juntas, a possibilidade de Maria primeiramente poder sentir para depois expressar o medo do desfalecimento. Na língua portuguesa, desfalecer significa perder as forças, mas a raiz é a mesma que falecimento ou morte. Muitas vezes, ela chegava às sessões tremendo de modo incontrolável e completamente congelada, sendo preciso muito acolhimento e trabalho corporal para que seu queixo parasse de tremer. Era então tomada por um choro profundo e convulsivo, chegando a berrar como um carneirinho na hora do desmame – aliás, sua boquinha lembrava-me um bebê procurando pelo seio materno. Nestas sessões em que eu percebia sua excitação e medo expressos por um tremor contínuo em sua boca e seu olhar assustado, o principal instrumento foi a maternagem, já exemplificado anteriormente, pois acreditava que ela precisava de um colo confiável para descansar, podendo, assim, aceitar o holding de que havia sido privada. Aos poucos, fui introduzindo o reach out para que ela pudesse ir buscar o que lhe havia faltado, assim como uma nova aprendizagem de poder buscar o que precisa.
Nosso vínculo foi se tornando cada vez mais forte de tal modo que pudemos ir aprofundando seu sofrimento e chegar ao medo da “loucura”. Em algumas sessões, durante trabalhos de descontrole, permitiu-se perder a cabeça e viver a intensidade de sua dor: dor de não ter sentido o amor da mãe, por estar sempre ocupada com a demanda da filha mais velha; dor da frustração de não ter podido chegar mais perto do pai, com medo de seu descontrole; dor por não ter tido a coragem de viver mais intensivamente, sempre com medo de um ataque cardíaco.
Para trabalhar as questões acima, utilizei técnicas de aprofundamento da respiração, kicking com movimentação dos braços e da cabeça, tendo como objetivo que Maria experimentasse a perda do controle e da “cabeça” sem enlouquecer. Tinha clareza que o contato e o vínculo de confiança criado e sustentado a cada sessão permitiam este trabalho.
Nesses oito anos de terapia em análise bioenergética, foi se fortalecendo o suficiente para realizar seus desejos: casou-se, comprou um apartamento com o marido, teve uma filhinha muito querida e construiu uma clínica bem-sucedida, tendo se especializado em terapia familiar.
Uma constatação da importância de sua terapia como fortalecimento de suas estruturas emocional e corporal foi ela ter podido enfrentar uma tragédia sofrida por sua irmã no ano passado, que sofreu um estupro acompanhado de muita violência. Nessa ocasião, Maria pôde confortá-la com coragem, dedicação e, até mesmo, tratar dos assuntos práticos que uma situação desse teor requer, como acompanhá-la à delegacia para fazer exame de corpo de delito. Esta situação de muita exposição foi vivida com vergonha e humilhação, pois tiveram de suportar olhares maliciosos dos policiais que pareciam culpá-las pelo abuso.
Para esta jovem que trazia como principal queixa o medo de sentir medo, este triste episódio exigiu muitas sessões de terapia para que não ficasse paralisada pelo trauma vivido por sua irmã. Atendendo seu pedido, recebi sua irmã no consultório, também abalada por meus próprios medos. Foi um momento de muita intensidade emocional, onde, juntas, choramos a violência sofrida. Este período foi relevante para o processo de Maria, porque ela dividiu os cuidados que sempre teve com a irmã caçula, permitindo minha ajuda e aceitando minha indicação para uma terapeuta de minha confiança.
Além desta especificidade de relação com sua irmã caçula, principalmente a violência sofrida por sua irmã, poderia ser experimentada como vivida por ela, levando em conta o que procurei colocar na introdução como questões que o contemporâneo intensifica, tais como: perda de limites e falta de discriminação, que nesses momentos de fragilização ficamos expostos.
II.2 Caso Clínico 2
Trata-se de uma paciente que está em terapia há, aproximadamente, oito anos. Chegou ao consultório contando ser uma profissional bem-sucedida que conquistou um lugar de destaque em seu trabalho. O motivo que a trouxe à terapia foi estar confusa e ameaçada por uma possível gravidez e de ter vivido uma forte depressão a um ano atrás. Casada há vários anos, tinha uma relação simbiótica e dependente com o marido. Trabalhavam no mesmo local, viviam sempre juntos tanto no trabalho como em viagens e hobbies, separados do mundo. A provável chegada de um terceiro, não-planejado, ameaçava a estabilidade do casal devido à grande mudança que acarretaria nesta vida a dois tão solidificada.
O que mais me impressionou nesta cliente, que chamarei de Ana, foi sua defesa racional fortemente construída e sua rigidez corporal. Seu corpo era tão endurecido e pouco acolhedor, seus braços, enrijecidos e o seu peito, colapsado que ela não podia abraçar nem ser abraçada, lembrando-me um militar em posição de continência. A força de seus olhos, tristes, porém conectados, me atraíram.
Sua coragem e determinação a tornaram aos olhos da sociedade uma vencedora. Ana era respeitada profissionalmente, bem casada, tinha uma casa linda, ricamente decorada e viajava constantemente. Mas a que custo? E como compreender sua tristeza se conseguiu o que tantos lutam para conseguir e não alcançam? Seu corpo foi a pista que me levou a questionar esta felicidade.
Sua imagem, como já dito, era mais de um oficial militar do que de uma mulher realizada. Ao relatar sua infância, Ana referiu-se a uma menina indefesa e muito rejeitada, que nunca era escolhida como par para trabalhos e brincadeiras na escola, o que reafirmava sua auto-imagem de ser feia e sem atrativos. Sua infância foi marcada por uma tia louca que morava com a família e costumava ameaçá-los com histórias tenebrosas e com seu jeito invasivo. Ela e suas irmãs acordavam no meio da noite com aquele olhar desvairado, confusas e, evidentemente, com muito medo. Não se sentiam protegidas em seu quarto com esta “louca” podendo entrar a qualquer momento. Ficavam sempre expostas a esta situação sem que os pais interferissem. Assim transcorreu a sua infância e adolescência: infeliz e com um constante sentimento de baixa-estima e muito receio de ser rejeitada. Ao apoiar-se em sua enorme força de vontade e capacidade, tornou-se muito competente e conhecida profissionalmente, soterrando seus sentimentos infantis de menos-valia.
É importante ressaltar que, como sua vida profissional desabrochou dentro de um ambiente particularmente masculino, para sentir-se aceita foi, aos poucos, abandonando sua feminilidade e negando seus anseios de mulher.
Outra de suas queixas era uma forte enxaqueca que a acompanhava há muito tempo e uma fobia por aranhas e outros insetos, dizendo não poder vê-los nem em fotografia.
Ana contou que não respeitava nem admirava a mãe, pois a via como passiva e com receio de seu pai, com o qual se identificava e, ao mesmo tempo, temia. Segundo ela, ele era severo e exigente com os filhos e sua mãe enfatizava esse medo sempre dizendo: “Fiquem quietos!”. “Cuidado, seu pai está para chegar!”. “Ele não tolera barulho!”. Dessa forma, distanciou os filhos dele. Ao mesmo tempo, sentia que a mãe, não agüentando a energia do pai, tinha por hábito empurrá-la para ficar ao lado dele (aliás, repete isso até hoje). É comum ela dizer: “Fale com seu pai, sente-se ao lado dele, você o compreende melhor”.
Com relação à sua vida sexual, Ana conta que durante os tempos de faculdade sentia-se livre e que teve várias experiências, porém mais tentava agradar aos parceiros do que usufruir de seu prazer. Com o marido, que o via como um dedicado companheiro, não conseguia viver sua sexualidade mais plenamente. Referia-se ao ato sexual como rápido e, muitas vezes, indesejado.
Sua força de vontade, que tem sido sua arma e defesa, a ajudou a se empenhar em seu processo terapêutico. Ela prontamente atendia aos trabalhos corporais propostos, cujo objetivo eram libertar seu corpo e fazer fluir sua energia da cabeça para a parte inferior. Utilizei praticamente todos os recursos técnicos da análise bioenergética, tais como: grounding, aprofundamento da respiração, kicking etc., sempre atenta ao fluxo de energia. Acreditava que, especialmente para Ana, era fundamental que ela pudesse sustentar mais energia em sua pélvis para ir se apossando de sua sexualidade e também expressar sua agressividade agora conectada com ser mulher.
Desde o início de seu processo, uma forte aliança estabeleceu-se entre nós, propiciando que sua confiança na mulher pudesse se esboçar. Evidentemente, por vezes, na transferência eu era alvo de seu desprezo e ódio, que, no início, foi atuado e pouco a pouco pode ser expresso. Como já exposto anteriormente, estes eram os sentimentos que tinha por sua mãe.
Durante algumas sessões, Ana parecia não acreditar em nada do que eu lhe dizia, permanecendo calada e distante. Mais tarde, escrevia-me e-mails, onde podia se abrir e falar de seus sentimentos e de sua mágoa por não ter sido compreendida. Estes fatos fizeram-me pensar muito em quantas vezes eu, na intenção de ajudá-la e/ou protegê-la, não a respeitei, avaliando mal a força de vida que explodia em seu organismo e, ao contrário, agindo como sua mãe, não agüentando sua energia. Estas questões foram vividas, reconhecidas, aceitas e trabalhadas, pois, felizmente, nosso forte vínculo permitiu que esses sentimentos fossem expressos, sem quebrar nem diminuir a qualidade desta relação. A possibilidade de Ana poder me expressar, transferencialmente, a imensa raiva e o desprezo que sentia por sua mãe constituiu-se em um forte aliado de fortalecimento de sua estrutura.
Neste percurso, Ana foi se apropriando cada vez mais de sua vida, podendo compreender os fantasmas de sua infância e, com o tempo, se livrar do medo paralisante que a acometia. Ela relacionou seu medo de aranha ao olhar de sua tia, que à noite podia pular sobre ela, a qualquer momento, em que estivesse desprevenida, precisando, desse modo, estar sempre alerta para não ser atacada, sem poder relaxar e sonhar seus sonhos de menina.
Durante seu processo terapêutico, trabalhamos intensamente sua raiva de não ter podido viver seu lado feminino, nem mesmo ter sustentado seu desejo de ter filhos. Este fato ficou claro quando ela perdeu o bebê na gravidez, que a surpreendeu e que foi o motivo de sua busca pela terapia. Mais uma vez, ficou submetida a homens poderosos a quem imitava e servia em seu mundo profissional. Eu diria que Ana pôde perceber “que vendeu sua alma ao diabo poderoso”. O desprezo pela mãe a impediu da necessária identificação com o feminino, ao contrário, levando-a a identificar-se com o pai poderoso. Poder receber e suportar a raiva de Ana foi uma grande elaboração dentro de meu próprio processo emocional.
Retomando, aos poucos, foi surgindo uma raiva imensa pelo “patrão pai”, que a fez questionar seu trabalho e a fragilidade dos relacionamentos profissionais que anteriormente eram considerados seus melhores amigos.
Em seu processo terapêutico foram necessários anos de muito envolvimento e dedicação até poder apropriar-se de seu verdadeiro self e de seus desejos, para que pudesse abrir mão do projeto paterno. Foram usados muitos exercícios: socar, bater com a raquete, torcer toalhas, kicking etc. para ajudá-la a expressar esta profunda cólera que surgia. Ela foi se dando conta de uma dor intensa que estava presa em seu peito, que agora podia aparecer, ser sustentada e expressa. Entrou em contato com um choro que vinha de suas entranhas. Demorou muitos anos para poder se entregar a esse choro convulsivo que ficou represado por muito tempo.
A enorme raiva que sentia pelo pai, que nunca a valorizou nem a respeitou foi agora dirigida ao chefe e aos colegas, todos homens poderosos que a faziam sentir-se desvalorizada e inferior, da mesma forma que sentia quando pequena na escola. Quando Ana pode conectar-se com sua magoa e dor, pela rejeição sofrida, com seu conhecido “sentimento de menos valia”, demitiu-se de seu cargo e atualmente trabalha meio período em uma empresa sem altos figurões, mas podendo estabelecer relações de parcerias e amizades. Agora, tem mais tempo para si mesma, pode cuidar e conter sua criança desamparada, e com energia e um pouco mais de segurança para correr atrás de seus desejos.
Em algumas situações em que sua auto-estima era confrontada, ela voltava a se sentir uma mulher rejeitada, feia, sem atrativos nem valor. Trabalhamos muito a expressão destes sentimentos até que Ana pudesse ir se apossando de sua força e, ao mesmo tempo, acolher e aceitar suas fragilidades.
De posse de si mesma, começou a questionar seu casamento simbiótico e procurar outras atividades que a completassem. Esta quebra da simbiose provocou um afastamento do parceiro, culminando em uma separação. Viveu dolosamente a perda desse vínculo de muitos anos, trazendo de volta os sentimentos de abandono e rejeição, tendo de suportar muita dor e sofrimento, porém, podendo ir, com coragem, até o fundo do poço, para renascer mais forte e agora aberta para viver sua vida com mais intensidade.
Neste momento, Ana vive a liberdade de conseguir estar só consigo mesma, de se apropriar e usufruir de sua casa, reencontrar amigos e viver sua vida cada vez mais plenamente.
Voltemos, então, à análise da difícil tarefa da nossa clínica, nestes tempos onde tudo parece conspirar para sufocar a pessoa e anular sua subjetividade, através da banalização do sentimento e dos valores pessoais, já que cada um vale menos pelo que sente ou sabe do que pelo que consome e pelo que produz; remete-nos ao objetivo de nosso trabalho, que acredito ser levar nossos clientes a recuperar a potência perdida.
Neste sentido, podemos entender que a epidemia de depressão com que vimos nos deparando trata-se, na verdade, de uma sociedade depressiva, que é efeito de uma cultura narcisista e com uma enxurrada de diagnósticos baseados em um quadro de sintomas pré-catalogados por algum manual.
Assim, muitas pessoas encaixam-se no diagnóstico de depressão quando se prescinde das demoradas indagações etiológicas da psiquiatria tradicional e também porque o decurso do distúrbio cada vez interessa menos do que a eventual remissão dos sintomas. Dessa forma, a resistência pessoal ao sofrimento e aos infortúnios da vida permanecerá intocada.
De acordo com a difusão do DSM, manual de quadros diagnósticos oficial, depressão e síndrome do pânico fazem parte das linguagens cotidianas em numerosos grupos sociais e são popularmente empregadas como diagnósticos por ampla variedade de pessoas. Hoje em dia, depressão tornou-se sinônimo de desânimo, tristeza, decepção, deixando estes de serem estados normais do que antes se designava “vida dura”.
Em uma sociedade hedonista higiênica que vende a imagem de estar sempre sadia, curada e feliz, qualquer sensação de anormalidade pode significar sintoma de doença, de estar anormal, de precisar de tratamento como se a normalidade não incluísse perdas e sofrimentos.
CONCLUSÃO
Pelo texto de Suely Rolnik, compreendi que os sintomas da atualidade referem-se a perdas da capacidade inerente ao homem de sonhar e criar, pois ele perdeu sua ligação com a natureza, o seu corpo e, principalmente, com a sua singularidade, tornando-se escravo da cultura da imagem, que nos impõe um padrão preestabelecido de felicidade.
Reich já nos avisava que a sociedade industrial ameaçava a liberdade do homem, escravizando-o ao serviço da produção.
Atualmente, o capitalismo perverte a natureza criativa do homem, impingindo-lhe valores éticos e ideais de vida.
O declínio da interioridade a favor do privilégio da exterioridade que confere à imagem um papel central vem sendo assim assinalado por Joel Birmann (2001):
“A cultura dos sofredores e dos espíritos desesperados já era. Não se admite mais, no contexto da sociedade do espetáculo, os personagens sofrentes e desesperados, que marcaram as gerações do pós guerra, como as gerações existencialistas e beat. O que interessa agora é a estetização da existência e a inflação do eu, que promovem uma ética oposta à do sofrimento. Enfim, por esse caminho pode-se entender a cultura do evitamento da dor promovida pela medicina e pela indústria de drogas pesadas, pois por seu intermédio a magia do silencio do sofrimento psíquico está sempre em pauta.”
Pensar a clínica bioenergética na atualidade implica em problematizarmos as questões com que nossa prática psi se depara, alicerçados em um compromisso ético e cientes de nossa responsabilidade como formadores e agentes de saúde.
Eu entendo que toda prática clínica é política, porque está sempre em transformação e, portanto, na necessidade constante de uma ampla discussão da produção política dessa prática.
No primeiro relato, Maria, ao chegar à cidade grande, se vê ameaçada com a quantidade de estímulos que intensificavam seus fortes impulsos, que sentia como ameaça de vida. Em sua história havia aprendido que seu corpo não agüentaria muita excitação, como, mais tarde, no auge de seus 20 e poucos anos, apaixonada e livre, suportar o pulsar da vida.
Nosso trabalho seguiu o seguinte fluxo: fortalecer e dar estrutura a esse corpo para que pudesse dar conta da demanda de sua vida.
No segundo relato, Ana adequou-se às exigências do mundo contemporâneo, tornando-se uma mulher de sucesso, porém à custa da perda de seu verdadeiro self. Abriu mão de seus anseios de mulher, identificando-se com o poder do “falos”, negando sua essência.
No entender de Lowen (1972, p. 97), a depressão ocorre quando uma ilusão desmorona frente à realidade; assim, neste caso, o sintoma foi a pista para chegar à profunda dor de Ana, a perda do objeto amado. Na ausência de contato com o corpo da mãe, a energia da criança é retirada da periferia do corpo e do mundo à sua volta. O efeito na criança da perda do amor da mãe é a perda do funcionamento completo de seu corpo ou de sua vitalidade.
Em seu livro Corpo em depressão, Lowen faz uma referência à citação de John J. Schwab, que prevê uma epidemia da depressão para a próxima década, sobretudo em jovens, como resultado da acumulação de perdas e desapontamentos relacionados ao colapso da ética protestante com sua ênfase na propriedade, produtividade e poder e pela ausência de uma filosofia de valores que interesse aos jovens.
Com Reich e Lowen, aprendemos a acreditar na força do organismo e no princípio da auto-regulagem sexual como as grandes ferramentas para combater o estrago que nossa civilização tem produzido nos jovens, tornando-os frágeis bonecos ou robôs sem alma.
“O prazer e a alegria da vida são inconcebíveis sem luta, sem experiências dolorosas e desagradáveis auto-avaliação. A saúde psíquica se caracteriza não pela teoria do nirvana dos iogues e budistas, nem pelo hedonismo dos epicuristas ou pela renuncia dos monasticismo; caracteriza-se pela alternância entre a luta desagradável e a felicidade, entre o erro e a verdade, entre a derivação e a volta ao rumo, entre o ódio racional e o amor racional, em suma, pelo fato de se estar plenamente vivo em todas as situações da vida.
A capacidade de suportar o desprazer e a dor sem se tornar amargurado e sem procurar refúgio no encouraçamento caminha lado a lado com a capacidade de receber a felicidade e dar o amor.” (Reich, 1975)
BIBLIOGRAFIA
BIRMANN, J. (2001) Mal estar na atualidade e as novas formas de subjetivação: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
FERNANDES, M.H. (2006) Transtornos alimentares: anorexia e bulimia. São Paulo: Casa Psi Livraria, Editora e Gráfica Ltda.
LOWEN, A. (1983) O corpo em depressão. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
______. (1977) O corpo em terapia. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
_______. (1986) Medo da vida: caminhos da realização pessoal pela vitória sobre o medo. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
PESSOTTI, I. (2003) Para compreender a “vida dura”. (
REICH, W. (1989) Análise do caráter. São Paulo: Livraria Martins Fontes.
______. (1975) A função do orgasmo. São Paulo: Editora Brasiliense S/A.
ROLNIK, S. (2003) “Fale com ele”. In: GALLI FONSECA, Tânia; ENGELMANN, Selda (Org.). Corpo, arte e clínica. Porto Alegre: Editora da RFRGS, 2005.
CONSTRUCTION AND DECONSTRUCTION
Alternatives in Conflicts Treatment
“There are moments in life in which to continue to observe or reflect
it is essential to know if it is possible to think in a different manner
and to perceive what we see differently.”
(Michel Foucault, The history of sexuality)
I INTRODUCTION
The purpose of this paper is to analyze our practice as bioenergetics analysts in the context of current issues using the social-political-clinical ideas of Wilhelm Reich as a point of reference seeking for contributions from contemporary theories that consider the “symptoms” that arise in our clinical practice..
A brief overview of the current scenario in Brazil, just to contextualize, shows us a frightened population that faces the collapse of ethical and moral values by witnessing the onslaught of political scandals and the misuse of public funds. Besides all that, it is a population threatened by general insecurity which leads to individuals afraid of losing their ideals, dreams and pulsation of life.
We live in a world where the illusion of an absolute character of a configuration is intensely empowered and the will for conservation reaches its apex. It is a world of consensus, a fusional world, with no differences or creativity or even life itself, of which the inflamed form is both market and state totalitarianism. The weakening of alterity has been leading to catastrophic effects on the relationship between the Man and the environment, who begins to make the body as a banner for the ideal of perfection and invulnerability, setting this ideal as regulators of the psyche.
It was within this perspective that we welcomed at out clinic people in complete desperation for not finding the inner strength to deal with this reality.
Suely Rolnik (2003), a Brazilian psychoanalyst, professor at the Graduate School of Clinical Psychology at PUC, one of the university of São Paulo, as well as the head of the Center for the States of Subjectivity, when talking about the symptoms we currently face such as: panic syndrome, non-specific types of depression, never ending exhaustion – of which most extreme manifestation is the curiously called burn out – besides the anorexias and bulimias, added by me, tells us that each one of these symptoms correspond to traumatic experiences during one of the stages of the process that is triggered in subjectivity.
Therefore, the panic syndrome could be considered as a traumatic experience by the astonishment felt when facing the cruelty of life which destroys forms of being. According to Rolnik, the trigger for this syndrome is the fact that the recurrent destruction of ways of being is experienced as self-life-threatening, apparently attacking the body.
In reference to non-specific types of depression, Rolnik attributes its triggering process to the traumatic experience of loss of meaning. In order not to transform this loss of meaning in fear and helplessness, it’s not dealt with properly, causing disbelief in the world and blocking the desire to connect with others.
Regarding the exhaustion, she explains that it is caused by a subjectivity that did yield neither in face of cruelty, nor to the loss of meaning. It keeps the creation and resistance strengths, however, loses track of the pulsating rhythms of expansion, once it starts to function frantically and endlessly until it reaches a state of “burn out” due to a short circuit of vital energy.
In accordance with Maria Helena Fernandes (2006), psychoanalyst and PHD in Psychopathology from the University of Paris VII, the debate on eating disorders and culture is enforced as the ideals of thinness take on, in recent times, greater significance for those who are interested on the subject. According to this author:
“The discomfort resulting from the homogenization processes of culture, through a type of westernization of the world, found in eating disorders a form of expression, among many others, that is, possibly privileged, since it directly engages the body, a target of the ideals of completeness and perfection of the post-modern era. Thus, eating disorders denounce the present time ill-being by revealing the paradox of both excess and scarcity in a culture marked by the search for the anaesthetized linearity of ideals.”
Elizabeth Roudinesco (2000), French psychoanalyst and historian, warns us that nowadays we live in a more and more depressed culture, not only because daily life is burdensome, full of frustrations, failures and deceptions, but mainly because it generates fragile “personalities”, with little resistance to frustration, loss, failure and the lack of understanding of the other. Some people become more susceptible to the loss of balance when faced with life’s struggles or under a hypothetical organic predisposition. Others become more confident of their potential and firmer in their values or more submissive. They become stronger with a solid subjectivity with greater resources to deal with suffering.
According to Dr. Marcio Bernik, psychiatrist and head of the anxiety outpatient unit for anxieties of the Hospital & Clinic of the Psychiatry University of São Paulo, panic syndrome, or panic disorder as it’s called in psychiatry, is a disease characterized by completely unexpected crisis of fear and desperation. The person feels as if he or she is going to die right there from a heart attack because the heart begins to beat wildly, the person feels short of breath and sweats profusely.
The suffering isn’t limited to the moment of a crisis but it is also present in between crises since he or she has no idea when the attacks will happen again, bringing insecurity and compromising even more their quality of life.
Panic disorder is a disease that reveals itself mainly in the youth and with a higher incidence in women than in men, being first experienced between the ages of 15 and 20 without any apparent reason.
The person worries because these symptoms may arise in a situation where they will find no way out or help, such as inside an elevator, subway, in enclosed spaces etc. If they react by avoiding these places for fear of another crisis, they will then develop a second disease called agoraphobia. It is a clinical phobia caused by non-treated panic characterized by the need to avoid threatening situations. It is fear of being afraid.
With this complexity in mind, I ask myself: What, then, is our role as bioenergetics analysts?
According to Dr. Lowen, our mission is to work towards bringing these bodies back to life, releasing them from a traumatic state in which they find themselves that numbs their impulses towards life. Lowen believes in the strength of the body and its desire to live, transcending the wish to die.
II PULSATION
There is a documentary movie called “ESTAMIRA”. It is a real story. It is not a role play or performance, but it describes the life of a woman diagnosed with schizophrenia but doesn’t accept the diagnosis. She outlives on the streets and denounces the psychiatric system of confinement and its alienating drugs with an absolute accuracy within a disordered speech. This touching and real film presents life in the pure form as it is, without the pretension of preaching any “truths”. It shows how this woman keeps the passion in spite of being outcast and considered incapable of living her life.
Confronted by this reality I was able to identify my feelings of gratitude towards Lowen, who always expressed his deep belief in the being’s strength and its potential to restore the vital energy.
In order to further this analysis, I shall present two clinical cases that bring answers to the issues raised above.
II.1 Clinical Case 1
Maria, as I shall call her, 24 years old, walked into the office so scared and withdrawn that she reminded me of a bunny out of its natural habitat. According to her, she had been born in a small country town and belonged to an extremely religious family. As soon as she graduated in Psychology, she moved to São Paulo, in order to take a specialization course at an important university.
She moved to her uncle’s house and at that time she met a friend of her cousin’s whom she fell in love with. Maria told me that during her childhood she suffered with a cardiac illness called “intra-ventricular communication”, commonly known as “heart murmur”, which tagged her as fragile and with poor health throughout her life to this day. This sickness was often seen by her family as life threatening.
Another important fact was her father’s alcoholism. When he was drunk, he would become aggressive and extremely strict with his daughters. Maria is the second daughter of four siblings. She and her only brother are closer to her father while her older sister is closer to her mother. The other one, the youngest daughter, was cared and protected by Maria, even thought there is only an eight-year gap between them.
During the therapeutical process, Maria began to notice her mixed feelings towards her father, in whom she relied on for the support she had never received from her mother; at the same time, she was afraid of father’s outbursts due to drinking or, during her teens, when she went out with young men or a boyfriend.
The moving to a big city, overcoming the obstacles that this new life brought along, as well as the fact of having fallen in love and having begun to experience more freely her sexuality, were, I believe, what triggered her phobic symptoms, hindering her from fully enjoying that phase of her life.
Maria began to fear everything: her professors, walking alone in the streets of São Paulo, crowded places, bothering her uncle and aunt, having sexual intercourse with the fiancé etc. When she went through these situations, she felt dizzy, sweated cold, and felt as if she were about to faint. Her suffering was so intense that I had to refer her to a trusted psychiatrist, to alleviate the symptoms that frequently struck her.
As I thought over the intensity of her fear, I remembered “Little Hans”, a Freud’s patient who was scared of being bitten by a horse. The analysis of that case enabled the psychoanalyst to comprehend the displacement of his patient’s feelings. The fear of horses meant an anxiety due to a powerful repressed desire. On the other hand, we could come to the conclusion that his fear arose out of Hans´ inability to step outside the house onto the streets and to live his life.
Once I better understood the root source of Maria’s fear, I started to build a bond with her and a trusting and welcoming environment, so that she would feel safe to acknowledge her feelings. Feeling the intensity of her fear and mistrust was essential on the first phase of the process.
Our goal during all these years of work has been to, together, build a possibility for Maria, firstly be able to feel and then express her fear of collapsing. When we say collapsing it means loosing the strength to remain standing, either by fainting or dying. Many times, she would come to the sessions trembling uncontrollably and feeling completely frozen, demanding a lot of warmth and body work to stop her from shivering. She would then start to sob, or even weep like a weaning lamb. In fact, her mouth reminded me the mouth of a newborn baby seeking out for the mother’s breast. In these sessions, in which I noticed this excitement and fear expressed by a continuous fright in her mouth and her scared looks, the main instrument was the mother-like behavior. As previously explained, I believed that she needed trustful arms where she could rest, enabling her to accept the physical touch that she had been withheld from. Slowly I introduced the reach out so she could look for what she was lacking, so, as a new learning process, she would be able to search for what she needed.
Our bond became increasingly stronger to the point that we were able to further explore into her suffering until we reached her fear of “insanity”. In a few sessions, during exercises of losing control, she allowed herself to really let go and relieve the intensity of her pain: the pain for not having felt the love of her mother as she was always busy with her duties as the oldest daughter; the pain of frustration for not being able to be closer to her father as she feared his outbursts, the pain of not having had the courage to live life more fully as she had always been afraid of having a heart attack.
In order to work out all the issues described above, I used deep breathing technics, kicking, along with the movement of the arms and head, intending to make Maria experiment the loss of control of the head without going crazy. I was certain that the trusting bond created and sustained by each session allowed this type of work.
During these eight years of bioenergetics analysis, she became strong enough to fulfill her dreams. She got married; bought an apartment together with her husband; had a daughter who is very dear to her; opened her own successful office specialized in family therapy practice.
The evidence of the importance of her therapy as a strengthener for her emotional and physical structures came when she had to face a tragedy her sister went through last year. She was beaten and sexually molested. At that time, Maria was able to confront her sister with courage, dedication and was even able to take care of the practical matters that a situation like this will require, such as accompany her sister to a police station to undergo a body exam. This was a very exposing, shameful and humiliating situation, since they had to bear with the malicious looks of the police officers, implying that she was to be blamed for the assault.
For this young woman, who brought as her biggest concern to be the fear of being afraid, this sad episode took many session of therapy to help her not to freeze in face of the trauma lived by her sister. Granting her request, I received her sister in my office, while shaken by my own fears. It was a very intense moment, where, together, we cried for the violence suffered by her. This period was relevant to Maria’s process, because she shared the care that she always had with her youngest sister, accepting my help and my referral to a trusted therapist.
Besides all these specificities of her relationship with her baby sister, the violence suffered by her could very well be experienced by Maria as well, taking into consideration what I tried to show in the introduction as the issues intensified by the contemporary era, such as: loss of limits and lack of discerner, which in fragile moments like this, will expose us.
II.2 Clinical Case 2
This case is about a patient who has been in therapy for about eight years. She came to the office saying to be a successful professional woman who reached a very important position in her career. The reason that brought her to therapy was her feeling confused and threatened by a possible pregnancy and having gone through a serious depression a year before. Married for many years, she had a symbiotic and dependent relationship with her husband. They worked at the same place, they were always together at work and when traveling or at leisure, always apart from the rest of world. The probable coming of a third person, not planned, threatened the stability of the couple, due to the great change it would cause on this solid life as couple.
What impressed me the most in this client, who I will call Ana, was her rational defense strongly build and her rigid body. Her body posture was so rigid and non-welcoming, her arms were stiff and her breast collapsed in such a way that she couldn’t possibly embrace neither be embraced, reminding me of a military person in a salute position. The strength of her eyes, that were sad but still connected, caught my attention.
Her courage and determination made her a winner in the eyes of the society. Ana was respected at work, well married, had a beautiful house richly decorated and traveled constantly. But at what cost? How can we understand her sadness if she achieved what so many strive for, but never reach? Her body posture was the clue that led me to question this happiness.
Her image, as mentioned before, was more of a military officer then of a fulfilled woman. When describing her childhood, Ana referred to a defenseless and rejected girl, who was never chosen to be part of study or play groups at school, which reassured her self-esteem of being ugly and unattractive. Her childhood was marked by a mad aunt who lived with the family and used to threaten them with horrible stories and with her invasive manner. Ana and her sisters would wake up in the middle of the night to their aunt’s bewildered look, feeling confused and obviously afraid. They did not feel safe in their own room since this “mad woman” could come in at any moment. They always felt exposed, since they couldn’t count on their parents to step in. Therefore her childhood and teenage years went by: feeling unhappy; having a constant feeling of low self-esteem and fear of being rejected.
When she relied on her strong will and capability, she became an efficient and notorious professional woman, burying her childhood low self-esteem.
It is important to highlight that since her career blossomed in a masculine dominant environment, in order to be accepted she had to, little by little, abandon her femininity and deny her female desires.
She also complained about a strong migraine that she had had for a very long time as well as a phobia towards spiders and other insects which she could not bear to even see in pictures.
Ana told me that she didn’t respect nor admired her mother, because she saw her as being passive and afraid of her father, with whom Ana identified herself while being afraid of him. According to her, he was strict and demanding with his children and her mother emphasized it by saying: “Be quiet!”. “Be careful, your father is about to get home”. “He can’t stand the noise!”. This way she drew her children apart from their father. At the same time, she felt that her mother, not being able to bear her father’s energy always drove her to be by him (in fact, she still does it). It’s common for her to say: “Talk to your father, sit next to him, you understand him better”.
As for her sex life, Ana told me that during her college years she felt free and that she had many experiences, however she was more concerned about pleasing her partners than to having pleasure, herself. With her husband, who she saw as a dedicated partner, she wasn’t able to fully live her sexuality. She referred to the sexual intercourse as being quick and many times undesired.
It was Ana’s strong will, which has been her weapon and shield, that helped her devote herself to the therapeutical process. She promptly attended to the body exercises that were proposed, of which the goal was to free her body and bring her energy to flow from her head to the lower area of her body. I used practically all technical resources of bioenergetics analysis, such as grounding, a deep breathing technic, kicking etc., always focusing on the energy flow. I believed that, specially for Ana, it was of main importance that she’d be able to sustain more energy in her pelvis, so she would begin to take control over her sexuality as well as express her aggressiveness now connected to the female being.
Since the beginning of her therapeutic process a strong alliance was established between us, which made her more confident in herself as a woman. Evidently, on many occasions I would be the target of her despisal and anger due to transference. In the beginning it was just acting out, that little by little became the expression of her real feelings; as previously said, feeling towards her mother.
During some of our sessions, Ana seamed not to believe in absolutely anything I told her, remaining silent and distant. Later on, she would write me e-mails, in which she would talk about her feelings openly and about her anger for not being understood by me. These facts made me think over all the times, I tried to help and/or protect her, I didn’t respect her, misunderstanding the vital energy that exploded in her body and, instead, I acted like her mother used to, not bearing her energy. These issues were lived by, recognized, accepted and talked over, because, fortunately, our strong bond made it possible for us to express our feelings, without breaking or even diminishing the quality of our relationship. The fact that Ana could express on me, by transference, the immense anger and dispisal she felt towards her mother, was a great allied to the strenghtening of her structure.
This way, Ana began to slowly take control over her life, better understanding the ghosts that had been haunting her since her childhood and with time she was able to get rid of the paralyzing fear that used to strike her. She related her fear of spiders to her aunt’s stare, that at night could jump over her, at any time, when she was helpless, having to be always alert in order not to be attacked by this woman, not being able to relax and dream her girly dreams.
During her therapeutic process, we intensely worked on her anger for not being able to live her feminine side, not even allowing her desire to become a mother. This fact became very clear when she had a miscarriage, which surprised her, and that was the reason why she looked for therapy, and once again, she was in the hands of very powerful men, whom she looked up to and served in her professional world. I could say that Ana was able to realize that she “sold her soul to a powerful devil”.
The despisal for her mother stopped her from identifying herself with her feminine side, in opposition; it led her to identify herself with the “powerful father”. The capability of receiving and bearing Ana’s anger was a great development of my own emotional process. Proceeding, little by little, the immense anger toward her “bossy father” figure started to emerge, which made her question her career and the relationship with her co-workers who previously were considered to be her best friends.
During the years of therapy it was necessary a lot of commitment and dedication until she was finally able to rely on her true self and her desires, in order to let go of that paternal design. I used many exercises: punching, hitting with a racket, twisting towels, kicking, etc. in order to help her express the profound anger that emerged. She began to acknowledge a huge pain that was stuck in her chest that now could be finally sustained and expressed. She got in touch with her capability of deeply crying. It took her many years to allow herself to cry compulsively. A cry that she had been holding in for a long time.
The great anger that she used to feel towards her father, who never appreciated nor respected her, was now transferred to her boss and co-workers, all powerful men, who made her feel diminished and inferior, just like she used to feel at school. When able to connect with her wound and pain, caused by the depravation suffered, with her very well known “worthless feeling”, Ana quit her job, and nowadays she works part-time at a company with no big bosses, nevertheless, having the opportunity to establish partnerships and friendships with her co-workers. Now she has more time for herself, she can take better care of her helpless-child-side with the support of the energy and a little more self-confidence to pursue her dreams.
In some situations in which her self-esteem was confronted, she would feel rejected again, ugly, unattractive and worthless. We worked very hard on the expression of these feelings, until Ana could take control of her strength while acknowledging and accepting her fragilities. Once more in control of herself, she started to question her symbiotic marriage and started searching for new activities that would fulfill her. Breaking this pattern of symbiosis caused her partner to pull away, leading to their break up. She suffered the pain of separation from her partner of years, which triggered her feelings of abandonment and rejection again. She bravely hit the bottom to then come back up as a stronger woman, more open to live her life more intensely.
At this moment Ana lives the freedom of being able to be by herself; of taking over and enjoying her home, meeting her friends and more and more living a complete life.
Let us return to the analysis of the challenge we face at our clinic, considering this era where everything seems to conspire towards suffocating the individual and abolishing his or her subjectivity through the depravation of the personal feelings and values, since what we consume is more important than what we feel or know. It brings us to the focus of our work, which I believe to be the guidance of our clients towards recovering their lost potential.
Therein we can understand that the epidemic of depression we currently face, in fact, reflects a depressed society, as a consequence of a narcissist culture and with a long list of diagnosis, based on clinical symptoms previously described in some psychiatry manual.
Therefore, many people fit into the diagnosis of depression when they are not subjected to the long and detailed etiological interview of traditional psychiatry, and also because the progression of the disorder is losing relevance to eventual remission of symptoms. Consequently, the personal resistance to suffering and misfortunes that are part of life will remain untouched.
According to the propagation of the DSM, the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, depression and panic syndrome are terms of diagnosis used on a regular basis in several social classes and are being commonly misused by many people. Nowadays, “depression” has become the synonym of discourage, sadness, and disappointment which are no longer considered normal for what used to be called “tough life”.
In a hygienic hedonistic society that markets the image of people always being healthy, fit and happy, any sensation of abnormality may be a symptom of disease, of being abnormal, of needing to undergo treatment, as if being normal did not include experiencing loss and suffering.
III CONCLUSION
Based on the text by Rolnik´s I was able to comprehend that the symptoms of present times refer to the loss of human being’s innate capability to dream and create, since he has lost his connection with nature, with his body, and, especially, with his uniqueness becoming a slave of a culture of the image that imposes us a pre-established standard of happiness.
Reich had forewarned us that the industrial society threatened man’s freedom, enslaving him to the production service.
Currently, capitalism misleads man’s creative nature, imposing ethical values and ideal lifestyles on him.
The downfall of the interiority in favor of the exteriority granting a central role to the image has been highlighted by Joel Birmann (2001):
“The culture of those who suffer and that of desperate souls is gone It’s no longer accepted, under the context of a society of spectacles, the suffering and desperate characters, typical of the post war generations, such as the existentialist and the beat generations. What matters now is the existence based on aesthetics and the inflation of the ego, which promotes ethics opposite to the suffering. In short, based on the above statement we can understand the culture of pain avoidance promoted by the medicine and by the pharmaceutical industry, since through it, the magic of the silent psychic pain is constantly being talked about.”
Therefore, in order to better think on the current clinical practice of bioenergetics analysis, we have to question the realities our practice of psy has to face, based on a commitment to ethics and conscious of our responsibility as educators and agents of health.
I believe that all clinical practice is also politics, because it is always changing and, therefore, there is a constant need for a wide debate on political work of this clinical practice.
In the first case study, Maria when arriving to the big city feels threatened by all the stimuli which intensify her own intense impulses, which she already used to see as life threatening. During her life, she had learned that her body could not handle much excitement, such as when, later, in the peak of her twenties, in love and free, she sustains the pulsation of life.
Our therapy followed the following pattern: strengthen her body and give it structure so that she would be able to handle life’s challenges.
In the second case study, Ana adapted to the demands of the contemporary world by becoming a successful woman, however at the cost of losing her true self, renouncing her desires as a woman, while identifying herself with the power of the “phallus”, forsaking her existence.
According to Lowen, depression occurs when an illusion comes apart when faced with a real situation. Thus, in this case, the symptom was a clue to reach the deep pain Ana felt when losing the object of her love. The absence of contact with her mother’s body causes the energy of the child within to withdraw it from the periphery of the body and the surrounding world. The effect of a child not receiving his or her mother’s love is the loss of the complete functioning of his or her body and his or her vital force.
In his book Depression and the body Lowen refers to a citation by John J. Schwab, in which he predicts an epidemic of depression in the coming decade, especially in youths, as a result of the accumulation of losses and disappointments related to the downfall of a protestant ethics with its emphasis on property, productivity and power and for the absence of a philosophy of values that interests youths.
With the help of Reich and Lowen, we learned how to believe in the body strength and in the principle of sexual auto-regulation as the great tools to fight the damages that our civilization has made on the young people, turning them into fragile dolls or soulless robots.
“waiting on the original.” (Reich, 1975)
BIBLIOGRAPHY
BIRMANN, J. (2001) Mal estar na atualidade e as novas formas de subjetivação: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
FERNANDES, M.H. (2006) Transtornos alimentares: anorexia e bulimia. São Paulo: Casa Psi Livraria, Editora e Gráfica Ltda.
LOWEN, A. (1983) O corpo em depressão. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
______. (1977) O corpo em terapia. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
_______. (1986) Medo da vida: caminhos da realização pessoal pela vitória sobre o medo. São Paulo: Summus Editorial Ltda.
PESSOTTI, I. (2003) Para compreender a “vida dura”.
REICH, W. (1989) Análise do caráter. São Paulo: Livraria Martins Fontes.
______. (1975) A função do orgasmo. São Paulo: Editora Brasiliense S/A.
ROLNIK, S. (2003) “Fale com ele”. In: GALLI FONSECA, Tânia; ENGELMANN, Selda (Org). Corpo, arte e clínica. Porto Alegre: Editora da RFRGS, 2005.